
Não é mais uma estória de pescador e nem mais uma de amor. Mar Me Quer pode ser uma alusão a brincadeira dos apaixonados, onde cada pétala retirada significa o destino do amor às vezes não correspondido. Ou ainda pode ser uma referência ao mar que conduz o destino de uma comunidade quase abandonada de pescadores que tanto o querem. Mar Me Quer, oitava montagem d’A Outra Companhia de Teatro (ago.2010), é baseada na novela do moçambicano Mia Couto e do texto dramático construído a partir desta obra pela portuguesa Natália Luíza publicada pela Coleção Cena Lusófona. Valendo-se dessas duas obras homônimas para construir a dramaturgia e criar um universo repleto de imagens, sons, e, estórias de pescador, amor e tradição, o grupo apresenta uma encenação contemporânea valorizando o jogo cênico entre os atores, que manipulam o cenário, executam a composição sonora do ambiente, e corporificam a dramaturgia rica em imagens da obra lusófona. Em cena, quatro atores se revezam nos personagens contando a história de Zeca, um homem que tenta fugir de seu passado e vive em diálogo com seu Avô, morto. Apaixonado por uma mulher mais velha, Luarmina, ele necessita recorrer as suas memórias para conquistar sua amada e continuar vivo. Para a montagem do espetáculo o grupo, contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2009, investiu numa pesquisa extensa e singular. Foram 09 meses de processo de investigação e criação do espetáculo. Em busca de uma dramaturgia que ressaltasse a poética da obra de Mia Couto e traduzisse a linguagem d’A Outra, afirmando a fragmentação dramática, a comicidade, a musicalidade cênica e o trânsito dos atores em conformidade com os elementos da cenografia, a companhia realizou ensaios abertos ao longo de toda criação e compartilhou seu processo com o Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare (RN), levando o trabalho até Natal. Um ambiente sonoro é instaurado pelo elenco, atrelando a musicalidade à cenografia móvel. Tudo é utilizado na construção de sons, imagens e simbologias, desde um pequeno grão de milho a um velho baú, que se transforma em barco. Tal qual o mar, o espetáculo traz uma oscilação rítmica que parece remeter ao balanço das ondas, embalando o expectador que ainda é convidado a participar da cena.